Jornal Ceilandense
Pessoas com deficiência reclamam da falta de acessibilidade em sites governamentais ou no comércio Excluídos da cidadania digital
Tuesday, 23 Jul 2024 18:00 pm
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O Brasil tem 18,6 milhões de pes soas com deficiência (PcD). Os dados do IBGE de 2022 mostram que 8,9? população brasi leira acima de dois anos de idade apre senta alguma dificuldade de exercer as atividades do domínio funcional, como enxergar, andar, ouvir, se comunicar, entre outros. Para estas pessoas, as fun ções do dia a dia se tornam mais traba lhosas e árduas, principalmente se não tiver as adaptações necessárias para tor nar a atividade acessível. Da mesma ma neira que a ausência de equipamentos afeta a vida prática, a falta de acessibi lidade atrapalha a vida digital das pes soas com deficiência.

Dados da pesquisa TIC Domicílios 2023, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostram que 84? população brasileira tem acesso à internet. Isso corresponde a 156 mi lhões de pessoas, entre elas, as PCDs. No entanto, a acessibilidade digital no Bra sil ainda está longe do ideal. De acordo com a pesquisa de acessibilidade digital, divulgada pela empresa de tecnologia BigData Corp, em parceria com o Movi mento Web Para Todos, apenas 2,8% dos sites brasileiros apresentaram adapta ções, sem falhas, para pessoas com de ficiência em 2024. Em comparação com 2023 (3,3%), os sites tiveram uma dimi nuição de 0,4% na acessibilidade digital.

A idealizadora do Movimento Web para Todos, Simone Freire, explica que a acessibilidade no mundo digital é tão importante quanto as adaptações no mundo físico, como a construção de uma rampa para pessoas com bai xa mobilidade, um intérprete de libras em um show, ou um texto em braile em um museu.

“Quando pensamos em acessibilida de digital, podemos fazer essa analogia de colocar uma rampa, por exemplo, nos sites. É colocar o braile no aplicati vo, porque a nossa vida, hoje, é digital. Para mandar um WhatsApp, para con ferir a nossa agenda, para fazer um pa gamento, enfim, nossa vida hoje prati camente gira em torno de um acesso di gital. Agora, imagina se você não é uma pessoa que está dentro dos padrões de pessoas típicas. Certamente você vai en contrar barreiras absurdas para exercer a sua cidadania no mundo digital. A im portância da acessibilidade na web, ela é vital”, afirma Simone Freire.

Falhas de programação

Para um site se tornar acessível, é pre ciso desenvolver ferramentas que trans formem as cores, os estilos de fonte, o ta manho das letras e dos desenhos. O CEO da BigData Corp, Thoran Rodrigues, ex plica que existem cinco grupos que ava liam se um site é acessível. As descrições e estruturas das imagens, as organiza ções dos links, as cores e as fontes são características que, se não forem pen sadas para todos, podem atrapalhar a navegação de pessoas com deficiência.

Para o cientista da computação Ra fael Gonçalves, o problema vai muito mais além do que as fontes e cores dos sites. Ele argumenta que os profissio nais da programação não estão fami liarizados com as regras e noções bási cas para fazer um site acessível. “Para um produto ser acessível, é preciso uma equipe que entenda sobre as regras, e a maior parte dos programadores não entende”, recomenda.

Freire argumenta, no entanto, que a acessibilidade digital é um trabalho de todos os usuários da internet. “É uma responsabilidade de todas as pessoas. Todos nós somos produtores de con teúdo que podemos contribuir colo cando legenda nos vídeos, descreven do as imagens que eu posto, por exem plo”, sustenta.

A acessibilidade também é proble ma nos sites governamentais. Segundo o levantamento do Cetic, apenas 10% dos sites do governo são acessíveis — e continuam com falhas. Freire entende que a falta de preocupação com a aces sibilidade é histórica. “A grande questão é que existe um legado de anos em que não se pensava em acessibilidade. En tão, os sites governamentais ainda não estão preparados para a inclusão, mas está começando a circular”, diz.

Thoran avalia que, apesar dos nú meros ainda não serem satisfatórios, o mundo digital começando a inclusão lentamente. “Isso se deve, em grande parte, à aplicação de inteligência arti ficial para tentar resolver problemas como as cores, o tamanho, o estilo”, completa.

O engenheiro de software Leonardo Gleison, 36 anos, e sua esposa, Camila Domingues, de 33 anos, enfrentam to dos os dias dificuldades para navegar na web. O casal é cego, mas encontrou maneiras de ter uma vida digital sem muitos problemas. Eles ensinam outras pessoas com deficiência a enfrentar o mundo virtual por meio do canal Inclu net, no YouTube. “A acessibilidade, para mim, é a capacidade que eu, como pes soa com deficiência, tenho de realizar minhas tarefas diárias com total auto nomia, seja uma transferência bancária,

agendamento de uma consulta ou com prar um produto. Hoje, infelizmente, fa zer essas atividades ainda é um pouco difícil e mostramos isso nos nossos ví deos, o que significa a acessibilidade real”, conta o engenheiro.

O maior problema que Leonardo e a esposa enfrentam são as compras on line. “Na loja virtual, é muito difícil ter descrição dos produtos que estão à ven da e, quando tem, são detalhes muito vagos. O e-commerce vende muito mais pela foto do que pelo que ele escreve sobre o produto que ele está venden do. Então, muitas vezes, a gente acaba não conseguindo comprar em todos os e-commerces porque falta descrição”, lamenta. Ele conta um episódio que descrevem bem a situação. “Eu estava comprando um interruptor na internet. Perguntei ao vendedor qual era a cor do interruptor, se era branco ou preto. Eu não sabia. Como ele tinha colocado a fo to com o interruptor na cor branca, ele zoou com a minha cara e falou que era rosa, mas eu não tinha como saber. São esses tipos de situações que passamos, infelizmente”, relata Leonardo.